domingo, 22 de abril de 2012

Guerra ao refrigerante

O cerco mundial ao consumo desse tipo de bebida está apenas começando. Lei na Califórnia exige uma redução em corante suspeito na fórmula ou a inserção no rótulo do aviso "contém substância cancerígena"

Além de engordar e provocar consequências conhecidas pelos obesos, os refrigerantes carregam hoje a suspeita de auxiliar no desenvolvimento de câncer, derrame e infarto. Por isso, o cerco começa a se fechar contra as bebidas gaseificadas. Em Nova York, nos Estados Unidos, uma campanha institucional choca ao escancarar os riscos de se consumir essas bebidas industrializadas. Na Califórnia, uma lei vai obrigar a mudança na fórmula dos refrigerantes de cola. E o Brasil caminha para começar o controle sobre os refrigerantes, que são consumidos diariamente por cerca de 28,9% da população.


Neste momento, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) está participando de uma pesquisa que envolve o mundo todo para a análise do "caramelo 4" de refrigerantes do mundo inteiro. Quem está coordenando é o Center for Science in the Public Interest (CSPI) ou, em português, Centro para a Ciência a Favor do Interesse Público. Trata-se de uma ONG americana sediada em Washington. "Ajudaremos fornecendo informações sobre o conteúdo dos refrigerantes no Brasil, tanto de marcas multinacionais como locais", explicou Fábio Gomes, nutricionista da área de Alimentação, Nutrição e Câncer do instituto.


O "caramelo 4’, citado por Gomes e chamado cientificamente de 4-metilimidazol (4-MEI), é justamente a substância que vai obrigar os fabricantes a mexer na fórmula de famosos refrigerantes de cola. Baseada em estudos da CSPI, a Califórnia limitou a quantidade de 4-MEI que os produtos vendidos no Estado americano podem conter sem que seja obrigado a inserir no rótulo a mensagem "contém substância cancerígena". Desta forma, as gigantes do mercado de refrigerantes norte-americano vão alterar a fórmula para todo o país.



"A maioria das pessoas pode interpretar o termo ‘corante caramelo’ como ‘colorido com caramelo’, mas este ingrediente específico tem pouco a ver com o caramelo comum ou o doce de caramelo. É uma mistura concentrada marrom-escura de substâncias químicas. O caramelo comum não é saudável, mas pelo menos não é tingido com substâncias carcinogênicas", alerta Michael Jacobson, diretor-executivo do CSPI, que solicitou a extinção completa da comercialização do produto ao órgão regulador de alimentos e remédios nos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration). "A Coca-Cola e a Pepsi, com a anuência da FDA, estão expondo desnecessariamente milhões de americanos a uma substância que causa câncer. Corantes cancerígenos não têm lugar em nossos alimentos, ainda mais se levarmos em conta que sua função é cosmética", critica Jacobson, sobre a substância ser usada apenas para escurecer o refrigerante


Diante da situação verificada nos Estados Unidos, a Proteste Associação de Consumidores já solicitou aos fabricantes e à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a substituição do "caramelo 4" por corantes mais seguros na formulação de refrigerantes vendidos no Brasil. O problema não se restringe ao 4-MEI presente nos refrigerantes de cola, porque essa não é a única substância nociva encontrada nesse tipo de bebida.


A mesma Proteste analisou em 2009 a higiene e a qualidade nutricional de 24 amostras de refrigerantes diet e light e suas versões tradicionais. A conclusão da associação foi clara: "Crianças não devem tomar refrigerantes, pois eles só oferecem açúcar e quase nenhum nutriente. Assim, as crianças que tomam refrigerantes terão maior propensão ao ganho de peso e à obesidade infantil". No mesmo teste, além do açúcar e de corantes impróprios, em sete refrigerantes foi encontrado benzeno, outra substância cancerígena. O resultado foi encaminhado à Anvisa e ao Ministério da Agricultura e, no ano passado, foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta com os fabricantes depois de o Ministério Público Federal (MPF) instaurar inquérito civil público para apurar o caso. O prazo para que alguma mudança aconteça em relação aos refrigerantes que têm benzeno é de até 5 anos. As amostras onde foram verificadas a presença de benzeno são: Dolly Guaraná (tradicional e light), Fanta Laranja (tradicional e light), Sukita (tradicional e zero) e Sprite (zero), sendo que a presença de benzeno foi muito alta em amostras de Sukita zero e de Fanta light.


Apesar de não haver uma relação direta com a doença, 4-MEI e benzeno têm alto potencial cancerígeno – sendo que o benzeno está relacionado especialmente a dois cânceres: leucemia e linfoma. Além das duas substâncias citadas acima, há outros problemas na composição dos refrigerantes. Sem especificar as causas, um estudo publicado em fevereiro no "Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention" relacionou o consumo de dois ou mais refrigerantes por semana ao aumento do risco do câncer de pâncreas em 87%, se comparado com indivíduos que não consumiram a bebida.


Além do câncer, um estudo feito pela Universidade de Miami (EUA) e divulgado em fevereiro concluiu que os refrigerantes diet sugerem um aumento no risco de infarto e derrame cerebral: após pesquisar os hábitos alimentares de 2.564 adultos com idade média de 69 anos, foi verificada que a incidência de doenças coronárias entre aqueles que consumiam refrigerante diariamente era 44% maior do que os que não tomaram. O quadro preocupa no Brasil porque, além dos 29,8% que consomem a bebida diariamente, segundo revelou o Ministério da Saúde no início deste mês, há os que não consomem a bebida com frequência e ajudam a compor outro número assustador: 48,5% da população estão acima do peso.



"O Inca não recomenda beber refrigerante, principalmente pela questão do açúcar e do adoçante. Não existe nada que justifique tomar refrigerante. Não contribui em nada e pode atrapalhar em vários aspectos. Há outro componente também muito nocivo, o fosfato, resultado do processo de gaseificação do refrigerante, que tem fatores antinutricionais. Quando você está consumindo sua refeição – salada, feijão, carne –, os nutrientes, principalmente vitaminas e minerais, têm sua absorção dificultada por esse aspecto do refrigerante", observa Gomes, que lembrou ainda da existência de vários projetos de lei em tramitação para tentar, de alguma forma, regular ou oferecer mecanismo de regulação na publicidade de alimentos, especialmente as voltadas para as crianças. O Código de Defesa do Consumidor também já estabelece que os produtos colocados à venda não podem trazer riscos à saúde ou à segurança dos consumidores. Assim, a tendência de cerco à fabricação e à venda de refrigerantes deve começar, como aconteceu com o cigarro.


"A mudança de hábito passa por uma construção que leva tempo mesmo. Há 50 anos, os médicos diziam aos pacientes que não faria mal se fumassem apenas três cigarros por dia. Hoje isso é praticamente inconcebível. Houve milhares de estudos e ainda assim não foram suficientes para diminuir o tabagismo. É preciso pensar em políticas públicas que possam favorecer hábitos mais saudáveis. No tabagismo, temos seguido esses passos. Temos dado condições para quem quer parar de fumar. Temos também de dar condições para quem quer comer melhor, com menos sanduíches e menos refrigerantes" , afirma Gomes, citando um processo que já começou com força nos Estados Unidos, especialmente na campanha feita em Nova York, onde um cartaz espalhado pela cidade transforma o líquido da bebida em gordura e um vídeo com uma pessoa consumindo 16 sachês de açúcar enquanto almoça. Isso para escancarar o que significa para o corpo a ingestão de uma garrafa de 600 ml de refrigerante.



Perigo de câncer também em alimentos


O risco de desenvolver câncer em razão da ingestão não se resume aos refrigerantes. A substância 4-MEI, que assusta os consumidores de refrigerantes de cola, também está presente em cervejas, achocolatados, doces de confeitaria, molhos curry e vinagre, além de salsichas, sopas e sucos industrializados. Ou seja, o consumo regular desses alimentos por um longo período de tempo também pode contribuir para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer.
No entanto, assim como ocorre com os refrigerantes, o 4-MEI não é o único vilão. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), os tipos da doença que se relacionam aos hábitos alimentares estão entre as seis primeiras causas de mortalidade por essa doença. Alimentos ricos em gorduras, como carnes vermelhas, frituras, molhos com maionese, leite integral e derivados, bacon, presuntos, linguiças e mortadelas "parecem fornecer o tipo de ambiente que uma célula cancerosa necessita". O Inca ainda alerta para agentes cancerígenos presentes, por exemplo, em nitritos e nitratos usados para conservar alimentos embutidos, além de alertar para o risco presente em defumados e churrascos impregnados pelo alcatrão proveniente da fumaça do carvão, ou para a atenção que deve ser dada à quantidade de sódio em alimentos preservado em sal, como carne carne de sol, charque e peixes salgados.


Além dos alimentos em si, o Inca também orienta o consumidor sobre o preparo do alimento – que pode ou não contribuir com o desenvolvimento do câncer. Usar menos sal e aumentar a quantidade de temperos como azeite, salsa, alho e cebola diminuem o risco de câncer, assim como optar por métodos de cozimento que usam baixas temperaturas ao invés de fritar os alimentos.


A má alimentação contribui também para o aumento de peso. E pessoas obesas têm mais chance de sofrer com doenças cardiovasculares, como infarto, trombose, embolia e arteriosclerose, além de asma, apneia do sono, distúrbios psicológicos e ainda problemas ortopédicos.

Um comentário:

  1. Muito boa está matéria, fica ai um alerta para os pais, que gostam de refrigerante em todas as refeições, a saúde dos filhos está em questão...

    ResponderExcluir

Postagem em destaque

MACACO LADRÃO PM 1