segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Vítimas da Hipocrisia



Dia de natal, 25 de dezembro,Belém do Pará, Brasil. O serralheiro Carlos Barros ouve um choro insistente no quintal de casa. Imagina ser o miado de um gato. Mas, ao se aproximar, encontra um bebê,de apenas 7 horas de vida que, tão logo nasceu, foi jogado pela mãe, a babá Elinaura Nascimento dos Santos, de 20 anos – vizinha de Barros –, de um muro de 2 metros de altura. Embrulhado em um saco plástico, o recémnascido,um menino com 2,2 quilos, foi recolhido por bombeiros com escoriações nos braços e na cabeça. Internado no hospital, recebeu alta na semana passada. O bebê, chamado de Natalino de Jesus, está sob cuidados do Conselho Tutelar, que não decidiu seu destino. Elinaura se apresentou à polícia e foi indiciada por tentativa de homicídio qualifi cado e dolo eventual – quando há intenção de matar. O Ministério Público irá apreciar o inquérito antes de encaminhá-lo à Justiça. Ela deu à luz às 20h da véspera de Natal. Embrulhou o filho num saco plástico e o jogou pelo muro, pois temia ser rejeitada pela mãe, a avó do bebê, que mora no Maranhão, e que havia lhe avisado para não engravidar em Belém, onde trabalha na casa de parentes. Com medo, escondeu a gravidez até a hora do parto.Teve o filho sozinha. Cortou o cordão umbilical antes de jogá-lo no quintal do vizinho. Agora, ela diz que quer cuidar do menino,antes indesejado. O caso não é único. Eles se multiplicam pelo País e muitas vezes são vistos como fatos isolados. Não são. Histórias trágicas como a de Elinaura e seu filho e de dezenas de outras mulheres, a maioria pobre,excluída e desamparada se repetem constantemente. São vítimas da desinformação, do descaso, da ignorância, do preconceito e da hipocrisia, como avaliam especialistas. “É preciso pensar sobre o que levou a mulher a praticar esse ato. Ela pode ter pensado que com um filho não poderia mais trabalhar, ter pensado no preconceito. É claro que ela poderia ter utilizado outros meios, procurado ajuda. Mas como? Onde? Temos uma sociedade que simplesmente critica e julga”, diz Leila Regina Lopes Rebouças, assistente técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria e coordenadora do Fórum de Mulheres do Distrito Federal. “Não é à toa que temos tantas crianças encontradas em lixeiras. É hipocrisia. É preciso parar de criticar e colocar o aborto como algo criminoso e refletir sobre o direito das mulheres de serem mães ou não”, diz Leila, lembrando da quantidade de mulheres que morrem no País em clínicas clandestinas para a interrupção da gravidez. A estimativa do Ministério da Saúde é de que os abortos são a causa de 15% da mortalidade materna hoje. Em 2009,os realizados no Sistema Único de Saúde (SUS), permitidos quando não há outro meio para salvar a vida da mãe ou para vítimas de estupros, foram 1.850. Não há uma estimativa oficial de quantos clandestinos são realizados, mas um indicador é o número de curetagens,procedimento relacionado a abortos espontâneos ou provocados: só em 2009 foram 183,6 mil, dez vezes mais que o de abortos legais. De acordo com pesquisa feita pelo Ibope a pedido do Governo Federal uma em cada sete mulheres de 18 a 39 anos já abortou no país. Se a estimativa for correta,o número de mulheres que já abortou pode chegar a 5,3 milhões.Muitas sem condições ou acompanhamento médico adequado, sob risco de contrair doenças ou infecções.
“Elas acabam maltratadas,descriminadas. Muitas das vítimas de aborto clandestino morrem”, ressalta Leila. “No Brasil, a Igreja Católica impede que esse debate avance. Muitos países de maioria católica e evangélica avançaram na legislação e o aborto foi legalizado (veja quadro na pagina 11). Isso não significa que as mulheres vão engravidar pensando em abortar. Nenhuma mulher planeja isso”, destaca. Carmen Hein de Campos,mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Direitos Sexuais e Reprodutivos pela Universidade de Toronto, Canadá, escreveu sobre o que considera a irracionalidade da criminalização. “São as mulheres jovens e pobres que se submetem a abortos que põem em risco sua saúde e sofrem com a falta de acesso a informações sobre saúde sexual e reprodutiva,métodos para prevenção à gravidez indesejada”, explica. Para Carmen, há um contraste “com jovens ricas que procuram clínicas clandestinas que oferecem aborto a preços altíssimos, mas com mais segurança. Essa diferença na condição econômica é responsável pelos riscos à saúde das mulheres de classes sociais menos favorecidas e pelos gastos do SUS com o pós-abortamento, tornando a ilegalidade ainda mais perversa”. A legalização pura e simples do aborto como forma de diminuir o número de abandonos não é consenso. De acordo com a psicóloga Lidia Weber, da Universidade Federal do Paraná, é preciso, antes de pensar em aborto, refletir sobre como prevenir e criar estratégias de distribuição de renda, educação e valorização da família. Ela diz que as mães que abandonam os filhos não percebem o sentido da família. “(são mulheres) que foram negligenciadas psicologicamente, foram punidas fisicamente, não aprenderam a amar uma criança, pois nunca foram amadas. É preciso um sentido de família que ensine o afeto”. afirma Lídia. Enquanto as soluções não avançam, as histórias de abondono se repetem. Em Salvador, no último dia 29, uma mulher foi presa sob suspeita de matar a filha recém-nascida. Logo após o parto, ela teria deixado abandonado o bebê em uma sacola em um terreno baldio. O caso foi descoberto porque ela passou mal e, no hospital, médicos constataram o parto recente. Em Guarapari (ES), um bebê foi encontrado em uma sacola de supermercado no meio de uma rua, enrolado em panos. A criança, uma menina recémnascida, sobreviveu. Na região de Ribeirão Preto,interior paulista, há quatro registros de abandono nos últimos 2 anos. No caso mais recente, o bebê, que já estava morto, foi achado após ser atingido por um cortador de grama.Em Minas Gerais, dois casos se tornaram marcantes. Em 2007,uma mãe foi suspeita de jogar a filha nas águas poluídas do rio Arrudas, em Contagem. A acusada, Elisabete Cordeiro dos Santos, de 25 anos, disse que só jogou a criança porque achou que estivesse morta. Ela teria confessado à polícia que tomou remédios para forçar o aborto. Um dos casos de maior repercussão aconteceu em 2006, quando uma menina de 2 meses foi colocada em um saco de lixo e jogada pela mãe na lagoa da Pampulha, um dos principais pontos turísticos de Belo Horizonte. Ela foi achada com sinais de afogamento, mas sobreviveu.

IURD FOLHA CHARGE


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ENCHENTES



"Pelo menos 460 pessoas já morreram no Estado do RJ. Esse número de mortos coloca a tragédia como o mais mortífero desastre natural no Brasil dos últimos dez anos." As chuvas que já mataram, em menos de uma semana, mais de 460 pessoas na região serrana do Estado do Rio de Janeiro são a manchete dos principais jornais do mundo neste quinta-feira (13). O inglês "The Guardian" noticiou que "Centenas morreram e mil estão desaparecidos em consequência das enchentes no Rio". O norte-americano The New York Times destacou o grande número de vítimas nas principais cidades atingidas, e o BBC, de Londres, trouxe extensa matéria sobre as dificuldades do resgate e a morte de bombeiros nas operações durante a madrugada desta quinta-feira. Já a o portal da emissora norte-americana MSNBC, um dos mais respeitados dos Estados Unidos, destacou a tragédia do Rio de Janeiro em sua página principal. As cenas de tragédias e mortes, principalmente no estado fluminense, se repetem da mesma fora há anos. Os primeiros registros da imprensa a respeito das enchentes no Rio são de 1711. No dia 4 de abril daquele ano, ocorreram três dias consecutivos de fortes chuvas, que provocaram inundações em toda cidade e desabamentos de casas, fazendo inúmeras vítimas. Passados 300 anos do primeiro registro dessa natureza, quase nada mudou, seja no Rio, seja no restante do País. Na região serrana fluminense, as chuvas que caíram durante esta semana já são consideradas o 6º maior desastre natural dos últimos 12 meses, segundo um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas de Epidemiologia dos Desastres (Cred) a pedido da BBC Brasil. Pelo menos 460 pessoas já morreram no Estado. Esse número de mortos coloca a tragédia como o mais mortífero desastre natural no Brasil dos últimos dez anos, de acordo com o levantamento. Diante dessa situação, a presidente Dilma Rousseff concedeu sua primeira entrevista coletiva no Palácio Guanabara, sede do Governo fluminense, onde prometeu desburocratizar a liberação de recursos e investir em prevenção. Dilma garantiu, ainda, atendimento aos desabrigados, como remédios e tratamentos na área de saúde, para permitir que seja reduzido o sofrimento daquelas pessoas.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

IURD NOTÍCIA POSSE DA HONRA.


Foi um encontro rápido, mas caloroso e com uma sincera troca de afetos e sorrisos que não passou desapercebida pelos ilustres convidados da recepção que celebrou a posse de Dilma Rousseff, a primeira mulher a presidir o Brasil. Exibindo a faixa presidencial no dia de sua posse, a presidente Dilma recebeu numa cerimônia reservada a autoridades e chefes de Estado – entre eles estavam a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez (leia na pág. 9) – os cumprimentos do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e proprietário da “Rede Record”. O bispo estava acompanhado do presidente do “Grupo Record”, Alexandre Raposo, do vice-presidente de jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro, e do presidente de relações corporativas da “Record”, Marcos Pereira. O encontro, no segundo andar do Palácio do Planalto, em Brasília, foi um dos principais eventos da festiva posse de Dilma Rousseff e possui um valor simbólico. Demonstra que o tempo é o senhor da razão e a honra prevalece a injustiças. Vítima de incessantes perseguições desde a fundação da Igreja Universal, há 33 anos, o bispo Macedo acostumou-se a sair mais fortalecido a cada ataque sofrido. No encontro com a nova presidente do Brasil, ele deu a volta por cima, mais uma vez. Em 2009, o bispo Macedo e mais nove pessoas foram acusados pelo Ministério Público de São Paulo de vários crimes, entre eles, de lavagem de dinheiro. Se tratavam de denúncias vazias, inócuas, inclusive já arquivadas pelo Supremo Tribunal Federal, mais alta instância jurídica do País. Ainda assim, tiveram grande repercussão em alguns dos principais veículos de comunicação brasileiros, como o jornal “Folha de S. Paulo”, a revista “Veja” e principalmente a “Rede Globo”. Emissora que, no sábado (1), dia da posse, interrompeu as transmissões ao vivo da cerimônia,possivelmente para não exibir o encontro da presidente com o bispo Macedo. A suposta manobra virou assunto no “Twitter”, rede social de rápida atualização, com comentários de vários telespectadores. Em outubro do ano passado, o Tribunal de Justiça de São Paulo anunciou a anulação de todas as denúncias do Ministério Público de São Paulo contra o bispo Edir Macedo e os outros acusados. Curiosamente, a anulação das denúncias não ganhou o mesmo destaque da ocasião das acusações, quando foi feito alarde desproporcional ao fato de serem denúncias requentadas. O episódio não é o único que envolve a história do bispo Edir Macedo e da Igreja Universal do Reino de Deus. No livro “O bispo – a história revelada de Edir Macedo”, o bispo relembra quando, em maio de 1992, ficou detido durante 11 dias na carceragem do 91º Distrito Policial, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, depois de ser cercado por dezenas de policiais fortemente armados quando saía do culto com a família. Uma experiência dolorosa, mas que deixou, segundo ele, uma grande lição: como transformar as adversidades. “Eu sabia que a prisão me traria enormes benefícios. Sabe por quê? Porque eu era vítima, e a vítima sempre ganha. Nunca o algoz. Eu tinha certeza de que o trabalho se desenvolveria ainda mais, não apenas no Brasil, mas em todo mundo. É a recompensa do sacrifício”, afirmou em depoimento ao livro quando, depois de 15 anos, voltou a visitar a carceragem.
Na ocasião, o bispo disse que só soube do motivo da prisão depois das primeiras conversas com os advogados. “Até então não tinham sequer me mostrado a ordem de prisão. Fui acusado de charlatanismo e curandeirismo... Charlatão? Curandeiro? Por quê? Porque prego o poder da oração pela fé? Por que prego o que a Bíblia ensina?”, perguntou num dos trechos do livro. Ele, então, se recorda da alegria da libertação, quando era aguardado por uma barulhenta multidão. O livro detalha excessiva operação da polícia para prender o bispo Edir Macedo, um episódio de truculência e exagero. No distrito, o único veículo a registrar a prisão foi a “Rede Globo”. No dia seguinte, o então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, desqualificou a operação e seus excessos. “O espetáculo que se viu no momento da prisão não é aconselhável para ninguém. É altamente constrangedor, até porque o bispo não foi condenado. Não entro no mérito das razões que o levaram à prisão, mas a forma foi exagerada”, registra o livro. Na época da prisão, o então presidente Fernando Collor de Mello vivia momentos de turbulência com denúncias de corrupção que chegavam ao coração do poder. A aquisição da “Rede Record” pelo bispo Macedo poderia ser um dos motivos para a prisão. Apesar da compra já estar concretizada, com toda a documentação em dia, a concessão de operação do canal ainda não havia sido dada pelo Governo, o que só aconteceria no final de 1992. Havia então uma disputa velada pelo controle da “Record” por outros grupos, pressões que o então presidente Collor admitiu existir, como consta na biografia do bispo. Uma das vozes mais indignadas contra a prisão do bispo na ocasião foi a do então presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, que no último sábado deixou a presidência para sua sucessora, Dilma Rousseff. “Acho um absurdo a prisão sob o argumento de que o bispo está enganando as pessoas com sua religião. As pessoas têm fé naquilo que querem ter fé”, disse Lula na ocasião, entre outros argumentos, numa indignação que se multiplicou entre vários políticos importantes e esportistas célebres, como Pelé. Anônimos também saíram em defesa do bispo Macedo. No ano anterior à prisão, o bispo enfrentara problemas semelhantes. Em outubro de 1991, o papa João Paulo II chegou ao Brasil para uma visita ao Rio de Janeiro, onde celebraria uma missa. No mesmo dia, a Igreja Universal realizaria uma concentração no estádio do Maracanã, considerada por alguns uma provocação à visita do papa. Foi decretada então a prisão do bispo Macedo e ele se tornou foragido da polícia até se apresentar na sede da Polícia Federal em São Paulo. Depois de um dia inteiro de interrogatórios foi obrigado a deixar o prédio pela porta da frente, onde era aguardado por um batalhão de fotógrafos. Foram vários processos criminais e, por um período de investigações, o bispo só podia deixar o País com autorização da Justiça, atravessando vários constrangimentos, inclusive durante um embarque no Rio de Janeiro. No final, o bispo Edir Macedo sempre foi absolvido ou houve arquivamento dos processos. No sábado (1), o bispo Macedo era um dos presentes num momento único do País: a posse da primeira mulher na presidência, uma conquista que também vem cheia de simbolismo e esperança. Ao lado da cúpula da “Rede Record”, o bispo ganhava status de chefe de Estado e mais uma vez demonstrava que o tempo será sempre o senhor da razão.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Crimes sem castigo.


Crimes acontecem todos os dias, em todos os lugares e por motivos diversos. Todos eles, no entanto, têm algo em comum: a consequência, pois mesmo que não interrompam bruscamente a vida da vítima, deixarão sequelas físicas e emocionais que repercutirão e afetarão negativamente a sua vítima para sempre Para o criminoso, no entanto, há desfechos diversos: ele pode receber a pena devida, viver eternamente como fugitivo da polícia ou, como é mais comum no Brasil, ser absolvido do delito praticado. Do ponto de vista do Código Penal Brasileiro, crimes não são apenas crimes, que dão sempre os mesmos resultados. Eles são analisados levando-se em conta o ‘histórico de vida’ do acusado. Ou seja, são considerados não apenas o resultado final de uma tentativa ou prática criminosa, mas também os motivos que levaram o indivíduo a praticá-lo. A partir daí, então, surgem os atenuantes de pena. Para a grande maioria dos advogados sérios do País, seja por falha do Código Penal ou daqueles que o aplicam, fato é que, na maioria das vezes, o criminoso se vê mais amparado pelas leis do que a própria vítima, já que o Brasil é uma das únicas nações do planeta em que o resultado de um crime não é o mais importante, mas sim as condições em que ele aconteceu. “Conscientes dessa ‘brecha’ dada pelo Código Penal, criminosos de diversas espécies vêem a oportunidade do ‘habeas corpus’ no ‘histórico do crime’. Daí surgem a legítima defesa, o crime passional, as alterações psicológicas, etc, todos atenuantes potenciais. Todos esses efeitos, com o passar do tempo, passam a impressão de que, no Brasil, o crime compensa”, dizem.

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